Eu pintei a parede da sala com tinta azul, fazendo listras exatas e com muita simetria. Eu precisava me recompor, recompor a sala e as coisas que eu quebrei quando você virou a esquina. Eu procurei atrás das portas, das cortinas, dos copos, e não encontrei a carta que você insistentemente não escreveu para mim, tão cheia de promessas e declarações de amor. Dizem que existem palavras que cortam, mas eu tenho a impressão que existem silêncios que cortam muito mais. Mas como eu ia dizendo, eu procurei atrás dos copos e aproveitei para lavá-los. E dentro de um deles eu encontrei um sonho que eu havia guardado há algum tempo, daqueles que apareceram quando você me surgiu cheio de luz. Eu o fiz recheado de desejo, com uma massa fina de carinho e uma casquinha deliciosa de saudade. Mas você não demonstrou muito interesse em provar, e então eu escondi no fundo daquele copo para nunca mais achar. Os sonhos da padaria se estragam, os meus, provenientes dos teus, não. É tão estranho, ainda mais agora que eu olho as listras azuis na parede tão cheias de sua ausência, ainda assim eu consigo construí-los passo a passo na minha mente, e eu lembro as vezes que você apontou o dedo para o horizonte e me falou que um dia chegaríamos lá. E eu vestia os meus sorrisos mais bonitos, e cruzava os dedos antes de dormir para sonhar com o nosso horizonte, tão dourado e cheio de luz, assim como os seus olhos quando me olhavam. Você tinha olhos brilhantes, mas suas mãos eram tão suaves que eu só conseguia ter olhos pra ela. E as vezes eu ficava me questionando se mãos tão delicadas poderiam me manter protegida dos perigos do mundo. Mas a verdade é que, com o passar do tempo, eu batizei a direita como “porto” e a esquerda como “seguro”, e isso não foi a toa. Por onde eu andava, eu as sentia me aparando de uma queda, me amparando do cansaço, me arrepiando a pele, me guiando para a sombra. Foi por isso que eu as cortei e guardei naquela caixa de sapato que ficava embaixo da minha cama com coisas antigas. Não que elas fossem antigas, mas eu simplesmente queria mantê-las guardadas por um período de tempo sem fim, podendo sempre pegar minha caixa escondida, trancar a porta do quarto e segurar forte suas mãos. E caso alguém viesse me perguntar o que eu estava fazendo, eu responderia asperamente:
- Eu ainda tenho as mãos dele, eu ainda tenho tudo sob controle!
Mas você sabe que é uma inverdade. Eu perdi o controle depois que cortei suas mãos e você percebeu que poderia viver sem elas e mais ainda sem mim. Você falou sobre o horizonte, mas de uma maneira diferente, e de repente não me cabia mais lá. E por ele ser tão grande, eu insistia em tentar ocupar meu lugar. As listras azuis na parede da sala representam o fim dos círculos e do ciclo chamado eu, você e suas mãos. A gente vai largando as coisas no meio da casa, sem perceber o que está acontecendo. A gente varre tudo e joga no lixo. Mas só depois é que percebemos que não está mais lá. As listras são azuis para lembrar o céu. O céu me lembra seus olhos cheios de luz. A luz me lembra das suas mãos tão cheias de mim. E eu, lembro de você, todos os dias, até amanhã, até nunca mais.


