a JANELA

terça-feira, fevereiro 4, 2014

Então, quando virou a página, a procura de uma gravura de um ancinho ou uma ceifeira foi repentinamente interrompida; o murmúrio grosseiro dos homens falando — que o tirar e recolocar do cachimbo na boca interrompia a intervalos — dava-lhe uma certa sensação de conforto, embora não pudesse compreender o que diziam, pois estava junto à janela. Esse murmúrio já durava há meia hora e se juntava suavemente à escala de sons que se acumulava ao bater dos tacos nas bolas e ao alarido das crianças jogando críquete, irrompendo por vezes, de modo abrupto; “Acertou? Acertou?” Mas, de repente, todo ruído cessou, restando apenas a cadência monótona das ondas na praia — que quase sempre era um rufiar repousante e ritmado para seus pensamentos, parecendo repetir sempre, enquanto se sentava com as crianças, as palavras consoladoras de uma velha canção de ninar: “Eu cuido de você; eu sou o seu apoio.” Mas, às vezes, repentina e inesperadamente — sobretudo quando sua atenção se desviava um pouco do que estava fazendo no momento —, não tinha esse sentido tão calmo: pois, como o rufar fantasmagórico de tambores que batessem impiedosamente o sentido da vida, fazia pensar na destruição da ilha e no seu engolfamento com o mar e a prevenia (a ela cujo dia escapara com um afazer depois do outro) de que tudo era efêmero como um arco-íris.
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[Rumo ao Farol, Virginia Woolf]
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