o AMOR ACABOU COM A MINHA VIDA

domingo, março 9, 2014

O amor acabou com a minha vida. Deu-me casa, lavou minha roupa, me fez comida. Deixou-me marcas, me fez construir sonhos, mas acabou com a minha vida. O amor me fez trocar de pele, mudar de cabelo e de estilo. O amor me renegou e aceitou outras tantas vezes, que perdi a conta. O amor acabou com meu medo do escuro, com meus pesadelos, com minha falta de ar. O amor me fez correr, me fez chorar, me fez crer em mim e nos outros.
O amor acabou com a minha vida quando me limitou e restringiu a apenas uma meta: fazer-me feliz. O amor acabou com tudo quando foi embora, quando voltou, quando bateu a porta uma última vez. O amor encheu tanto a minha paciência, que perdeu a graça. E me fez graça. Trouxe-me multidões para que eu pudesse aprender a gostar da minha solidão, e deixou-me sozinha para que não temesse o medo do abandono. Abandonou-me para em seguida me mostrar que, mesmo acabando com minha vida, estaria sempre lá, de diversas formas, tamanhos, vontades. O amor me tirou a vontade de desistir, e eu resisti. Insisti.
O amor apagou o que eu escrevi num caule de árvore, para se inscrever na minha pele, um corte digno de ser exibido. O amor foi contra quando eu estive a favor, e foi a favor quando eu declarei guerra. O amor, vagabundo, acabou com a minha vida enquanto me fazia novos planos. Acabou com a minha vida e me enganou, todo o tempo. Enquanto eu sangrava, maldizendo da vida e do mundo, o amor, silencioso, agia. E fazia chá para dor no corpo e no coração. Amor malvado, oras, se o que queria era acabar com a minha vida, por que me deixar penar tanto assim? Por que apertar tão forte o meu coração?
O amor mentiu, omitiu, acabou com tudo, rasgou as fotos e pintou as paredes. O amor me fez chorar por dias, e colocar para fora tudo o que havia de bonito e de bom. E me fez esquecer. O amor me deu enjoos, mas não me fez gerar nada. Deu-me medo, mas ainda mais coragem. E me fez gritar, reagir, correr.
O amor acabou com a minha vida, mas me ensinou a enganar a morte: apesar de me empurrar do precipício, me deu asas. O amor me fez surpresa, me fez raiva, me fez poema e curou o meu resfriado. O amor me deu dor nas costas. O amor me enganou, mas eu não caio mais. O amor me fez amor, me fez chuva, me fez mulher.
O amor acabou com a minha vida, e eu tive medo de não encontrá-lo nunca mais. Contudo, ironicamente, enquanto acabava com tudo, o amor me mostrou que eu poderia senti-lo novamente, outras muitas vezes, sempre que quisesse, na mesma intensidade ou até mais que na primeira vez.

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3 Respostas to “o AMOR ACABOU COM A MINHA VIDA”

  1. Eduardo. Says:

    Prezada escritora,

    Quero parabenizá-la pela capacidade de transformar o mundo ao seu redor. Parece bobagem, mas como bom empirista tenho acompanhando cientificamente, a quase três anos, o empregado VPS. Percebi que o boêmio da Rua da Areia tornou-se uma criatura híbrida (quase gay).
    Do edonismo ao casamento, da esterilidade ao sonho da perpetuação da espécie Homo Carnavalis (D. Graça agradece).

    Você é a “cara”.

  2. Valter Says:

    O Amor por voce salvou a minha vida!


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