vELOZ[MENTE]

domingo, agosto 23, 2015

“Vejo desfilarem os minutos como se o tempo fosse uma paisagem, esses campos cultivados que ficam para trás, com girassóis, papoulas, gavelas de feno. Que viagem é esta? Para onde vou ao certo e com que fim? Os segundos moem-me, rolam em mim como pedras, pois cada momento abriga a possibilidade de que Roos venha e fale-me. As escadas em hélice. Roos com a mão estendida em direção ao pássaro. Bato palmas para que ele voe, para que eu não me enrede na armadilha. Armadilha? Agora é o inverso que me veda ir vê-la, procurá-la. Receio ir ter às suas mãos e assim a perder.”

[Pág. 140, Avalovara, Osman Lins]

mEMÓRIAS

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

flush

[Virgínia Woolf, Flush – Memórias de um cão]

a JANELA

terça-feira, fevereiro 4, 2014

Então, quando virou a página, a procura de uma gravura de um ancinho ou uma ceifeira foi repentinamente interrompida; o murmúrio grosseiro dos homens falando — que o tirar e recolocar do cachimbo na boca interrompia a intervalos — dava-lhe uma certa sensação de conforto, embora não pudesse compreender o que diziam, pois estava junto à janela. Esse murmúrio já durava há meia hora e se juntava suavemente à escala de sons que se acumulava ao bater dos tacos nas bolas e ao alarido das crianças jogando críquete, irrompendo por vezes, de modo abrupto; “Acertou? Acertou?” Mas, de repente, todo ruído cessou, restando apenas a cadência monótona das ondas na praia — que quase sempre era um rufiar repousante e ritmado para seus pensamentos, parecendo repetir sempre, enquanto se sentava com as crianças, as palavras consoladoras de uma velha canção de ninar: “Eu cuido de você; eu sou o seu apoio.” Mas, às vezes, repentina e inesperadamente — sobretudo quando sua atenção se desviava um pouco do que estava fazendo no momento —, não tinha esse sentido tão calmo: pois, como o rufar fantasmagórico de tambores que batessem impiedosamente o sentido da vida, fazia pensar na destruição da ilha e no seu engolfamento com o mar e a prevenia (a ela cujo dia escapara com um afazer depois do outro) de que tudo era efêmero como um arco-íris.
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[Rumo ao Farol, Virginia Woolf]

sEM MAIS

quarta-feira, janeiro 8, 2014

LIVROCEMSONETOS

 

 

 

[Cem sonetos de amor, Pablo Neruda]

 

sEJA LEVE

quarta-feira, julho 31, 2013

“Ao contrário de Parmênides, Beethoven parecia considerar o peso como algo positivo… o peso, a necessidade e o valor são três noções intrinsecamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”

  [Milan Kundera, ‘A insustentável leveza do ser’.]

oRAÇÃO

quarta-feira, julho 17, 2013

Alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém.

(LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pág. 112.)

mAIS UM DIA

quinta-feira, janeiro 24, 2013

[Khaled Hosseini, A Cidade do Sol]

nA MADRUGADA

terça-feira, outubro 23, 2012

“Até que pôde chorar, e chorou muito, um choro solto, sem vergonha nenhuma, de menino ao abandono. E, sem saber e sem poder, chamou alto soluçando:
-Mãe, mãe…”

 

[Sagarana, Guimarães Rosa]

eM PEDAÇOS

terça-feira, outubro 23, 2012

Imagem
Há qualquer coisa dentro de mim que me magoa.
[Charles Bukowski]

dOM

segunda-feira, outubro 22, 2012

“Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro… Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas as quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar”.

[Dom Casmurro, Machado de Assis]

cAPITU

segunda-feira, novembro 1, 2010

“Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstancias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.”

 

[Do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis.]

sOFIA

domingo, maio 30, 2010

“E só quem faz o que é certo – assim dizia Sócrates – pode se transformar num homem de verdade.”

[Do livro “O mundo de Sofia”, Jostein Gaarder, pág. 84]

[dESAS]SOSSEGO

segunda-feira, março 8, 2010

“Até que progredi bastante, mas o futuro inquieta. Reconheço que parte da graça da vida está em deliciar-se com o imponderável, com a nossa pequenez diante da vontade de Deus, do destino (que podemos, sim, mudar…) ou de vetores incontroláveis. O amor, por exemplo, que é volátil e fugidio, traz um tanto de desassossego, mas, quando pousa no ombro, traz uma súbita alegria.”

[Trecho do livro ‘A maratona da vida’, de William Douglas, pág. 15]

eU ACREDITEI, E ISSO ME BASTOU

quinta-feira, março 4, 2010

“Enquanto eu não acreditei que poderia fazer, não fiz. A crença é que constrói o fato. A batalha definitiva é sempre na mente. Todo mundo conhece a parábola do besouro, que é absolutamente verdadeira: é um inseto que, pelas leis da aerodinâmica não conseguiria voar, mas como não tem a menor idéia disso, ele voa. “Você pode, se você acredita que pode” e “Se você acredita que pode, ou acredita que não pode, você está absolutamente certo”, dizia o empreendedor e visionário Henry Ford.”


[Trecho do livro ‘A maratona da vida’, de William Douglas, pág. 34]



mENINA VALENTE

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

“[…] “Valente menina!” Como a chilena que enfrentava o mar, em Isla Negra, ela também enfrentava sua solidão. E eu ficava com a minha, parado, burro, triste, vendo-a partir por minha culpa.

[…]

A ternura e o tremor de seu duro corpo juvenil, seu riso, a insolência alegre com que invadiu minha casa e minha vida, e suas previsíveis crises de pranto — tudo me perturbou um pouco, mas reagi. Terei sido grosseiro ou mesquinho, terei deixado sua pequena alma trêmula mais pobre e mais só?

Faço-me estas perguntas, e ao mesmo tempo me sinto ridículo em fazê-las. Essa moça tem a vida pela frente, e um dia se lembrará de nossa história como de uma anedota engraçada de sua própria vida, e talvez a conte a outro homem olhando-o nos olhos, passando a mão pelos seus cabelos, às vezes rindo — e talvez ele suspeite de que seja tudo mentira.”

[Trecho do livro ‘A Traição das Elegantes’, Rubem Braga, pág. 209]



l-E-V-E-M-E-N-T-E

segunda-feira, janeiro 25, 2010

“Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto – se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto – meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão morenos que, esboçados à sombra, mal se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentida, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha.”

[Trecho do livro ‘Morangos mofados’, Caio Fernando Abreu.]



pOIS É…

domingo, janeiro 17, 2010

“A gente tem tantas memórias. Eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. O acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. De repente o presente, qualquer coisa presente. Uma rua, por exemplo. Há pouco, quando você passou […] eu olhei e pensei, eu já morei ali […]. E a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. As ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. Mas continuam inteiros dentro de você.”

(Trecho do livro ‘Onde Andará Dulce Veiga?’, de Caio Fernando Abreu, em 1991 , p. 188).

Hoje eu decidi que voltaria a escrever aqui e, cá estou. Confesso que precisei de um período longe por fraqueza, covardia e medo de encarar algumas coisas. Mas, se uma hora todo mundo precisa aceitar a vida como ela é, “eu voltei, agora pra ficar”.
Antecipo que, provavelmente, algumas coisas mudarão quanto a minha forma de escrever, porque eu também mudei, mas espero não ter perdido a essência e delicadeza dos que acreditam num mundo e em pessoas melhores. [E eu não deixei de acreditar, apesar de […].]
Esse é o meu primeiro texto do ano, e nada mais justo do que fazer uma breve descrição do ano que passou. Foi lindo sim, com todas as suas cores e dores. Comédia misturando-se com tragédia, mas o que é a vida senão um misto de riso e choro?
Foi difícil, não há como negar. Nem tudo terminou como esperado, nem todos os momentos implicaram em flores ou finais felizes, mas eu sei que trabalhei bastante  para que ficasse tudo bem. E se não foi, é porque não tinha que ser.
Foi um ano simples, embora toda complexidade envolvida, mas que me fez colher o melhor das pessoas e de mim. Descobri que sou melhor do que um dia supus imaginar e isso me deixou orgulhosa da menina que eu vejo no espelho, mesmo quando está com os olhos marejados de chorar. [Nem que seja de tanto rir.]
Por fim, foi um ano de aprendizado e crescimento. Mesmo que em alguns momentos eu o veja ainda com um pouco de repulsa, talvez com o passar do tempo consiga entender que foi tudo necessário e que, apesar de tudo, foi um ano maravilhoso, em todos os sentidos.
Por enquanto deixo-o quieto, guardadinho ali no canto, até o dia em que eu possa encará-lo da maneira que ele realmente merece. E enquanto não chega esse dia, deixa estar e me segura aí que eu tô chegando.



“sOBROU MEU VELHO VÍCIO DE SONHAR…”

segunda-feira, novembro 2, 2009

“Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.  […] E se ela se afogar, se recupera. […] E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça – que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca – levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário…por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”

[Caio Fernando Abreu]

O ano passa rápido. Estamos quase em dezembro e eu já consigo ver a árvore de natal no meio da sala, com todas aquelas luzes e, contudo, nenhum espírito natalino. Pelo menos não aquele que tanto falam, de amor e paz, e todos os outros sentimentos perfeitos, que existem entre as pessoas perfeitas, que constituem famílias mais que perfeitas. Eu, tão cheia de imperfeições, quero que acabe logo o que tem pra acabar. O ano, as provas, os problemas, as coisas que me machucam e me machucam e sempre tornam a me machucar.
Quero poder acreditar que o ano que se aproxima será melhor e que os erros deste ano não precisam (necessariamente) serem repetidos. Quero poder dar um rumo definitivo pra minha vida, seja no âmbito espiritual, profissional ou sentimental. Quero acreditar mais em mim, em tudo o que eu (sei que) sou capaz de realizar. Quero poder continuar fazendo o bem às pessoas e ser reconhecida por isso. Quero continuar seguindo os meus valores e vendo que eles me tornam uma pessoa melhor. Quero confirmar (mais uma vez) que devemos tratar e amar as pessoas pelo que elas são, e não o que tem. Quero prosseguir sendo alguém paciente e agindo de forma delicada com as pessoas, independente de a recíproca ser verdadeira ou não. Quero sentir mais frio na barriga e menos saudades. Quero mais presença de afeto e ausência de palavras duras. Quero o todo e não apenas a metade. Mas quero me cuidar também. E quero que também cuidem de mim. Quero mais amor vindo de fora pra dentro, porque o de dentro pra fora eu sei que tenho muito.
Eu sempre ouvi falar que todo mundo merece uma segunda chance… E, embora eu não ache que tenha cometido erros tão grandes para alguém julgar que deva dar uma segunda chance a mim, vejo que a própria vida pode se encarregar disto. Então, estou quase pronta. Guarda o que é meu com carinho, que em breve estarei assumindo o meu (tão suado e merecido) lugar. E pode confiar em mim que não irei te decepcionar.



qUASE

segunda-feira, outubro 12, 2009

“[…]e saiu andando lenta em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu-azul – daquela não-dor, afinal.”

[Ao Simulacro de Imagerie, Caio Fernando Abreu]

oNDAS ESQUECIDAS…

sexta-feira, setembro 18, 2009

“Ele me esquecerá. Deixará sem resposta minhas cartas (…). Eu lhe mandarei poemas, talvez ele responda com um cartão-postal. Mas é por isso que o amo. Proporei um encontro – debaixo de um relógio, ou numa encruzilhada; esperarei, e ele não virá. É por isso que o amo. Ele se afastará da minha vida, esquecido, quase inteiramente ignorante do que foi para mim. E, por incrível que pareça, entrarei em outras vidas; talvez não seja mais que uma escapada, um simples prelúdio. (…) continuarei a deslizar para trás das cortinas, para o seio da intimidade, em busca de palavras sussurradas a sós. Por isso parto, hesitante mas altivo (…).”

(Trecho de ‘As ondas’, Virginia Woolf.)



quarta-feira, agosto 26, 2009

“(…) eu não sabia o quanto iria sofrer e ver sofrer. Agora que sei, danço melhor, rio melhor. Odeio melhor, também.”

Trecho do livro ‘Résistance’, de Agnès Humbert.



o AMOR É UMA DOENÇA

sábado, agosto 30, 2008

(…)
Não sei lidar com a responsabilidade da felicidade. A felicidade guardada na bolsa ou na vida.
Eu tenho um homem lindo me esperando essa hora, e eu quero com todas as células do meu corpo ir ao encontro dele. Mas eu não sei lidar com tanta felicidade, por isso estou planejando a morte dele.
Estou planejando matá-lo com minha estupidez, quero que ele morra fulminado pelas minhas armas de boicote.
Quero que ele perceba o quanto sou chata, ciumenta, louca e doente. E que ele enjoe logo da minha cara abatida de intensidade. Que ele pegue logo bode do meu cansaço em viver tanto, porque vivo muito mesmo quando estou deitada olhando para um ponto fixo.
É tão cansativo ser eu mesma com todos os meus medos e neuroses, e quero que ele sinta o fardo do meu peso.
Morra e me liberte dessa alegria incontrolável. Passe desta para uma melhor, porque eu sou um lixo.
(…)
Eu olho para você e tenho tanta, mas tanta alegria em saber que você existe, que sinto ódio. Ódio de eu não mais esperar por você.
O sentido da minha vida era encontrar você. O motivo para eu seguir adiante nos corredores escuros e bater em portas obscuras, era a sua busca.
Agora que você está sentado numa sala clara e óbvia, não preciso mais me enfiar em buracos. Mas os buracos eram a única trilha que eu conhecia.
Você me soltou na atmosfera e eu estou voando. E eu sinto saudades do buraco, da espera, da angústia.
Eu sinto falta de olhar triste para o espelho e me sentir metade. Agora que eu tenho você, nem perco mais meu tempo olhando para o espelho, porque só tenho olhos para você.
Você me roubou de mim mesma. E eu sou tão ciumenta que estou com ciumes de mim. Você me tirou da minha vida incompleta. E me transformou numa completa idiota.
O amor é uma doença. Eu sinto náuseas, febres, dores musculares. Eu acordo assustada no meio da noite. Eu choro à toa.
Eu estava do lado da sujeira, eu era a outra, eu estava por dentro do crime.
Você me fez sentir um mundo limpo, verdadeiro e eterno. E esse mundo é tão novo pra mim, que eu te odeio. Que eu estou pequena nele, e preciso de você o tempo todo para me abraçar e dizer que está tudo bem.
E quando você não está por perto, eu caio. Porque não sei nada desse mundo de alegrias e coisas bonitas.
Você não me deu saída. Você transformou todas as vozes que me davam escapatórias para outros corredores, em sons sem lábia. Minhas saídas perderam as escadas escuras e charmosas, porque você lavou meu chão de imundícies com amaciante Fofo.
Se eu tentar fugir, escorrego no perfume da minha nova vida. A nova vida que não sei viver. A nova vida que quero viver ao seu lado. Ao lado do homem que eu odeio porque nunca amei tanto.
Ao lado da felicidade que eu odeio porque se ela acabar, não sei mais se consigo voltar pra casa. E nem se quero.
(…)
Agora eu estou aqui, inconformada com o seu passado, querendo matar suas lembranças. Com ciumes do seu silêncio porque ele está com você há mais tempo do que eu e eu tenho medo do quanto ele te consome, com ciumes do seu sono porque ele te leva do meu foco.
Com raiva da sua importância porque ela me congela, com raiva do tempo que não dura para sempre quando você me olha sabendo das minhas loucuras e ainda assim me amando.
Agora eu estou aqui, querendo que todos os amores do mundo durem para sempre, e que nenês nasçam, e que árvores cresçam e que garotas vagabundas não nos invejem e que os desejos das nossas sombras não nos traia.
Agora eu estou aqui, de quatro, de lingua no chão, te odiando muito, virando a cara, socando você, cuspindo em você, te tratando mal, tudo isso porque não sei lidar com o mundo girando na minha barriga, a tontura do amor, o enjôo do vício em você, a dor do músculo quando me separo.
Pode parecer maluco, mas todas as minhas súplicas para que você desista de mim, é um jeito maluco de pedir que você não desista nunca, pelo amor de Deus.

Tati Bernardi

cÉU ESCURO E GOSTO DE SANGUE

sábado, agosto 23, 2008

Mais doído que arranhão no joelho é corte na alma (ou no coração).
Há aqueles mais superficiais, onde as circustâncias pelas quais foram provocados nem importam tanto, tornando-os possíveis de cicatrizar em tão pouco tempo que caem logo em esquecimento.
Outro tipo de corte é aquele que vai um pouco mais fundo… Uma palavra dita num tom não muito agradável, uma amizade que não foi tão sincera, um amor não correspondido.  A dor dura um pouco mais, podendo ser de um dia, um mês ou até um ano. A pessoa ferida pode esquecer horas e lembrar outras, o estrago provocado pode arrancar algumas lágrimas e uns “eu nunca mais farei isso” (ou coisas do tipo), mas um dia cicatriza. Também cai em esquecimento.
Há ainda outra espécie de corte – e já digo de antemão que é o pior de todos eles – que chega da forma mais inesperada possível; seja por carta, email, telefone, ou ainda, no pior dos casos, por palavras e gestos mal ditos ou não ditos. Esse tipo de dor é daquelas que nunca será dividida com ninguém (nem mesmo com o causador), daquelas que é guardada dentro da alma e o sofrimento é prolongado, podendo durar uma vida toda. É algo que não sai do pensamento, que persegue tudo que é feito, pensado, dito; e dói tanto, ao ponto de ser uma dor além do que se é possível sentir. Vem quando se dorme ou está acordado, na hora do almoço ou no lanche da madrugada.  E a pessoa ferida dirá mil vezes que já passou, que já esqueceu, que não foi nada. Mas só ela saberá o quanto doeu ter vivido aquilo, o quanto seu coração ficou dez vezes mais frágil com aquele corte, o quanto queria poder simplesmente esquecer. Mas não esquece nunca. Porque há coisas que servem de lição, mas outras apenas nos perseguem a vida toda trazendo as lembranças mais tristes e o medo de seguir em frente.

“Ele mexe comigo, esse garoto.
Sempre.
É sua única desvantagem.
Ele pisoteia meu coração.
Ele me faz chorar.”

(A menina que roubava livros, Markus Zusak)



eSPERAI

sábado, julho 5, 2008

O Coração é Todo Espera

I.

Quando ama, o coração
escala declives.

Impõe cânticos
à raiz das quietudes.

Crava umidade nas mãos.

II.

Quando ama, o coração
Cresce por dentro.

Escava o vento.

Impõe sinetas
ao caule dos cânticos.

Exige trajetos das mãos.

III.

Quando ama, o coração
é todo espera.

As horas contam-se
por regras outras.

O dia tem algo de sono.

E toda demora
tem a cor triste
do abandono.

(Jaime Vaz Brasil, em O Livro dos Amores)

… (sILÊNCIO)

sexta-feira, junho 13, 2008

“…e descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida…”

Veronica Shoffstall

lIBERDADE ASSIM

quinta-feira, janeiro 24, 2008

“…porque a liberdade ainda continua sendo a coisa que mais prezo neste mundo. Claro que isso me levou a beber vinhos que não gostei, fazer coisas que não deveria ter feito e que não tornarei a repetir, ter muitas cicatrizes em meu corpo e em minha alma, ferir algumas pessoas – às quais terminei pedindo perdão, em uma época que compreendi que podia fazer tudo, exceto forçar outra pessoa a seguir-me em minha loucura, minha sede de viver. Não me arrependo dos momentos que sofri, carrego minhas cicatrizes como se fossem medalhas, sei que a liberdade tem um preço alto, tão alto quanto o preço da escravidão; a única diferença é que você paga com prazer, e com um sorriso, mesmo quando é um sorriso manchado de lágrimas…”

(Paulo Coelho)



“eLA SE GUARDAVA…”

quarta-feira, janeiro 16, 2008

“A própria Lóri tinha uma espécie de receio de ir, como se pudesse ir longe demais – em que direção? O que dificultava a ida. Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe onde. Ela se guardava. Por que e para quê? Para o que estava ela se poupando? Era um certo medo da própria capacidade, pequena ou grande, talvez por não conhecer os próprios limites. Os limites de um ser humano eram divinos? Eram. Mas parecia-lhe que, assim como uma mulher às vezes se guardava intocada para dar-se um dia ao amor, que ela queria morrer talvez ainda toda inteira para a eternidade tê-la toda.”

(Trecho do livro Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector).



dE TÉDIO?

terça-feira, janeiro 8, 2008

Nós dissemos
Que o começo é sempre inesquecível
E no entanto, meu amor, que coisa incrível
Esqueci nosso começo inesquecível.
Mas me lembro de uma noite
Sua mãe tinha saído
Me falaste de um sinal adquirido
Numa queda de patins em Paquetá…
Mostra…Doeu?
Ainda dói
A voz mais rouca
E os beijos: cometas percorrendo o céu da boca).
As lembranças acompanham até o fim o latin lover
Que hoje morre
Sem revólver, sem ciúmes, sem remédio.
De tédio.

(João Bosco e Aldir Blanc)

sEJA

quinta-feira, novembro 29, 2007

Nunca imagine você mesma ser outra coisa diferente daquilo que possa parecer aos outros que você é ou poderia ter sido se não fosse diferente daquilo que você aparenta ser às outras pessoas.

Duquesa para Alice, ali nas Maravilhas.

“aMOR É FINALMENTE A POBREZA…”

sábado, novembro 24, 2007

“…Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós as vezes nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é mais necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive, amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio.”

Trecho de: A imitação da rosa – Clarice Lispector