mEMÓRIAS

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

flush

[Virgínia Woolf, Flush – Memórias de um cão]

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a JANELA

terça-feira, fevereiro 4, 2014

Então, quando virou a página, a procura de uma gravura de um ancinho ou uma ceifeira foi repentinamente interrompida; o murmúrio grosseiro dos homens falando — que o tirar e recolocar do cachimbo na boca interrompia a intervalos — dava-lhe uma certa sensação de conforto, embora não pudesse compreender o que diziam, pois estava junto à janela. Esse murmúrio já durava há meia hora e se juntava suavemente à escala de sons que se acumulava ao bater dos tacos nas bolas e ao alarido das crianças jogando críquete, irrompendo por vezes, de modo abrupto; “Acertou? Acertou?” Mas, de repente, todo ruído cessou, restando apenas a cadência monótona das ondas na praia — que quase sempre era um rufiar repousante e ritmado para seus pensamentos, parecendo repetir sempre, enquanto se sentava com as crianças, as palavras consoladoras de uma velha canção de ninar: “Eu cuido de você; eu sou o seu apoio.” Mas, às vezes, repentina e inesperadamente — sobretudo quando sua atenção se desviava um pouco do que estava fazendo no momento —, não tinha esse sentido tão calmo: pois, como o rufar fantasmagórico de tambores que batessem impiedosamente o sentido da vida, fazia pensar na destruição da ilha e no seu engolfamento com o mar e a prevenia (a ela cujo dia escapara com um afazer depois do outro) de que tudo era efêmero como um arco-íris.
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[Rumo ao Farol, Virginia Woolf]

aPENAS O SILÊNCIO

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Querido,

Tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo.
Sinto que não podemos passar por outra daquelas
terríveis fases. E desta vez não ficarei curada.
Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar.
Assim, estou fazendo o que me parece melhor.
Você me deu a maior felicidade possível. Não creio
que duas pessoas pudessem ser mais felizes até
chegar esta doença terrível. Não consigo mais lutar.
Sei que estou estragando a sua vida e que sem
mim você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está
vendo, nem consigo mais escrever adequadamente.
Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você
toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente
paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso —
e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria
sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade.
Não posso mais continuar estragando sua vida. Não creio
que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos.

[Carta de Virginia Woolf a seu amado Leonard Woolf]